15 de Junho, 2024

O anúncio da morte de Outubro foi claramente exagerada

LIVROS & MÚSICA | Apresentação do Livro No labirinto de Outubro – Cem anos de revolução e dissidência de Rui Bebiano.

Sobre a metáfora do labirinto o autor, que se fazia acompanhar na mesa por Paula Godinho e por Porfírio Silva, remeteu os presentes na sessão de apresentação para o conteúdo do próprio livro. Nele consta uma clarificação e justificação da sua utilização. Rui Bebiano reafirmou que o acesso e a saída de uma estrutura labiríntica estão sempre garantidos, mas que é na complexidade da experiência proporcionada pelo conjunto dos seus percursos intrincados, que se encontra o desafio para uma reflexão aprofundada.

E foi em torno desta complexidade que os apresentadores e o próprio Rui Bebiano alimentaram a conversa na Livraria Almedina do Atrium do Saldanha na apresentação do Labirinto de Outubro.

Porfírio Silva insistiu sobre a necessidade de uma clarificação do papel da violência nestes processos de mudança global na sociedade e relembrou que prevalece em muitas cabeças a ideia expressa por Clausewitz sobre a guerra como continuação da política por outros meios. No fundo, o deputado socialista conhecido pela sua abertura ao debate à esquerda e pela sua abordagem aos temas do comunismo de forma não-sectária, insistiu que não se justifica recuperar o velho debate baseado na dicotomia Reforma ou Revolução mas que o posicionamento, nos dias de hoje, sobre alguns temas que continuam críticos pode favorecer politicamente a mudança social.

Um Bebiano pessoano

Rui Bebiano, que recuperou numa intervenção muito informal os temas em debate, acentuou a ideia que a obra agora apresentada publicamente situa-se mais no campo da História das Ideias do que no terreno da filosofia política. Mais uma vez acentuou o fato do livro ser uma espécie de co-produção de três Bebianos em cooperação: o ativista e analista de experiências de uma família política à qual pertence, o professor universitário de História Contemporânea e o portador de dúvidas que recorre a vários meios, científicos e outros, para fazer evoluir o conhecimento e o pensamento crítico na sociedade.

Uma das referências particularmente estimulante, que o autor introduziu nesta conversa de fim de tarde, foi a da oposição de esquerda, no próprio debate interno, que teve lugar até 1927 sobre a transformação da sociedade e as vias para a atingir. A versão oficial e a tradição dominante sobre os acontecimentos históricos na Rússia e posteriormente União Soviética omitem e até caluniam esta corrente que existiu e que foi física e documentalmente dizimada pelo stalinismo.

A questão da dissidência e do stalinismo

Este terreno de aprofundamento temático faz apelo às questões da dissidência nos partidos e na sociedade que surge aliás como central face às inclinações stalinistas, que como relembrou Rui Bebiano, não são apenas uma atuação do período histórico vivido por Joseph Staline, mas antes uma abordagem à liberdade e à democracia que se prolonga até aos nossos tempos.

A possibilidade de ser construída uma alternativa política, como dinâmica estrutural na vida dos partidos e dos movimentos sociais, continua pois a ser uma matéria de interesse comum fundamental e por esta via rejeitar o famoso TNA de Margaret Tatcher There is No Alternative (relembrado por Rui Bebiano) que impõe o capitalismo como único sistema para os regimes políticos, económicos e sociais.

Valerá a pena ler o livro, perder-nos neste labirinto e, no futuro imediato, realizar o debate que fortaleça a corrente de todos aqueles que desejam uma esquerda plural que tenha a paixão pela “dissidência” positiva.

Carlos Ribeiro

Editor

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